Pesquisas nas áreas de Inteligência Artificial e análises clínicas ajudam na detecção e até no combate à proliferação de doenças.

Comemorado em 28 de fevereiro, o Dia Mundial das Doenças Raras alude à visibilidade, conscientização e promoção do acesso ao diagnóstico e tratamento de enfermidades que afetam cerca de 300 milhões de pessoas no mundo. A dificuldade no diagnóstico implica a eficácia do tratamento; com isso, os avanços tecnológicos voltados para áreas como biologia, medicina e genética têm sido fortes aliados nesse processo, amenizando as dificuldades dos pacientes.
Fabiano Moreira, professor e pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Oncologia da Universidade Federal do Pará, explica que a tecnologia vem, há alguns anos, sendo utilizada para permitir diagnósticos mais precisos e precoces. “São os avanços em sequenciamento genético, exames de imagem em alta resolução e análise computacional de grandes volumes de dados que permitem identificar padrões dificilmente detectáveis por métodos tradicionais”.

A inteligência artificial, por exemplo, tem ajudado no reconhecimento de padrões através do uso de algoritmos, na triagem inteligente e na velocidade do diagnóstico, como explica a professora Jasmine Araújo, do Programa de Pós-graduação em Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Pará (UFPA). “O uso de algoritmos de Deep Learning – aprendizado de máquina orientado por redes neurais de várias camadas – consegue identificar anomalias em pixels de exames de imagem que, muitas vezes, podem ser imperceptíveis ao olho humano. A IA também pode analisar exames assim que são realizados e identificar casos críticos no topo da fila de leitura do médico especialista; daí, o que levaria horas de análise manual pode ser processado em segundos, permitindo que o tratamento comece com maior rapidez”.
Jasmine Araújo, professora da UFPA e pesquisadora do Laboratório Cidades Inteligentes (LabCity) e do INCT IAmazônia.
Apesar do aperfeiçoamento contínuo e dos avanços observados, a pesquisadora explica ainda que “a análise por IA pode reduzir significativamente o risco de erro, mas funciona melhor como um sistema de ‘segunda opinião’ para o médico poder avaliar. A IA pode ajudar quando houver fadiga por parte dos profissionais e também pode evitar erros devido a pequenos detalhes ou por ignorar hipóteses. O diagnóstico final continua sendo humano, mas a IA pode garantir que nenhuma evidência seja ignorada”.
Os avanços observados, sobretudo nos últimos anos, impactaram diretamente a medicina moderna, com destaque para a área de diagnósticos em saúde. Mas o oncologista considera que a Oncologia e a Genética sofreram os maiores impactos. Fabiano Moreira destaca que, nessas áreas, “a etapa de diagnóstico, combinada a dados moleculares, incorpora também informações que influenciam diretamente a decisão terapêutica”, explica o médico e pesquisador do Núcleo de Pesquisas Oncológicas da UFPA.
Democratização do acesso à saúde

No último dia 26 de fevereiro, o Ministério da Saúde (MS) incluiu no Sistema Único de Saúde (SUS) o Sequenciamento Completo do Exoma (WES). O exame, considerado de alta tecnologia, ajuda na confirmação do diagnóstico de doenças raras genéticas. O MS estima que o novo procedimento atenda a 90% dos pacientes que precisam de laudo. Para a professora Jasmine, a tecnologia ajuda na democratização do acesso à saúde, sobretudo quando implantada no sistema único. “A IA, por exemplo, pode democratizar a saúde ao ajudar no tratamento de pacientes em áreas remotas onde não há especialistas, indicando quem realmente precisa ser atendido por especialistas em um centro hospitalar mais especializado”.
Apesar dos avanços, Jasmine ressalta que esses processos precisam de atenção na segurança e generalidade. “Por exemplo, precisamos garantir que os dados dos pacientes estejam protegidos e não sejam usados para fins discriminatórios. Os algoritmos precisam ser treinados com dados diversos e em quantidade suficiente para não gerarem diagnósticos imprecisos. A conectividade precisa chegar às periferias e zonas rurais, onde essas ferramentas com IA deverão ser utilizadas”, explica a pesquisadora do Instituto Nacional de Tecnologia (INCT) IAmazônia.
Para Fabiano Moreira, esse processo precisa ser reconhecido e fortalecido para que, de fato, seja eficaz e garanta a democratização do acesso universal à saúde. “Existe a necessidade de políticas públicas, investimento em pesquisa, infraestrutura adequada e capacitação profissional. Sem isso, a tecnologia também pode aprofundar desigualdades, uma vez que só seria acessível às pessoas que já têm acesso à medicina de qualidade. O efeito final para a redução de desigualdades depende menos da tecnologia e mais de como ela é implementada, regulada e gerida”, conclui o pesquisador.


